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A liberdade de ser quem sou

Tenho que estar livre de quaisquer situações e apegos que me derrubam ou me seguram para trás.
Também tenho que ser livre para poder expressar meu verdadeiro potencial.


 

brother

A liberdade tem dois lados.

Quando criança, eu adorava ir às praias desertas. Ficava horas olhando as gaivotas que brincavam e deslizavam felizes. Me perguntava “por que os adultos em volta eram tão complicados e pesados por suas próprias decisões?”. Mesmo nessa idade tão jovem, eu também estava preso por muitas coisas que não queria fazer. Muito mais tarde, entendi que a sensação de liberdade das gaivotas estava conectada à sua proximidade de ser o mais natural possível. Em outras palavras, elas estavam apenas sendo elas mesmas. Da mesma forma, a grama cresce sem qualquer esforço. Nuvens se formam, a chuva vem, o sol brilha.

A natureza se desenrola em uma sinfonia inexorável do que ela é.
Jean-Jacques Rousseau, o filósofo francês, foi o inventor provável do clichê, “de volta à natureza”. Embora ele mesmo não tivesse conseguido voltar, ele vendia a ideia de forma tão eloquente. Ele expressou este estado com estas palavras: “o homem nasce livre e por toda a parte encontra-se a ferros”. Gerações de pessoas têm procurado a paz e a tranquilidade, longe das ramificações urbanas em suas tentativas de voltar à natureza, pelo menos nos fins de semana. É como se aquela natureza convocasse a nossa natureza interna para um encontro, para haver um melhor entendimento entre as ambas.
Um dos maiores paradoxos é que a liberdade faz parte da natureza original da própria alma. Antes de virmos a esta dimensão física, não temos pensamentos e até mesmo não temos relacionamentos com ninguém e nada. Nesse sentido, somos livres ‘de fábrica’. Então, bate a saudade por uma sensação de liberdade espiritual, quando nós não a temos mais.
Um dos ensinamentos do budismo é que este mundo é um lugar de sofrimento e de que temos de nos tornar livres das garras da roda interminável de renascimento. Fazemos isso através de levar uma vida moralmente correta, de sermos conscientes e sábios no uso de nossos pensamentos, palavras e ações.
Jesus disse que a verdade nos liberta. Mesmo que isso possa soar ingênuo para alguns, é bastante profundo. Não é só uma questão da liberdade, que é o nosso bem mais precioso, mas a compreensão dela. Se colocamos um pássaro em uma gaiola, ou contemos um cão brincalhão com uma correia, vamos observá-los tentando sair imediatamente. Da mesma forma, ser verdadeiro comigo, com as minhas qualidades interiores profundas e na minha relação com o Divino, vai me mostrar automaticamente como manter-me livre ao fazer as coisas e interagir com os outros.
Há uma história sobre um homem rico que tinha um negócio extremamente lucrativo que o mantinha ocupado sete dias por semana. Ele estava tão ocupado que aquilo tinha começado a afetar sua saúde. Ele veio de uma família pobre e seu irmão ainda era um simples pescador. Um dia ele perguntou por que este irmão não poderia trabalhar mais para ganhar mais dinheiro.

A troca foi assim:
– Por que eu iria querer trabalhar mais? Eu já tenho tudo o que preciso.
– Se você trabalhar mais, você seria capaz de comprar um outro barco e talvez alugar para outros. Assim, poderia ter outros trabalhando para você.
– Por que eu faria isso?
– Para ganhar mais dinheiro.
– Por que eu iria precisar de mais dinheiro. O que eu ganho é suficiente para pagar todas as minhas despesas.
– Mas se você tivesse mais dinheiro você poderia ser muito mais livre economicamente. Talvez você pudesse comprar outra casa em algum lugar onde você poderia ir e relaxar.
– Mas eu já estou relaxado. Minha vida é simples, fácil e livre.
O significado desta história não é que todos temos que nos tornar simples pescadores. É que temos de organizar nossas vidas de acordo com as nossas necessidades reais, e não as imaginadas.
Certa vez, com um grupo de executivos em Sri Lanka, lhes pedi para para visitar a selva ao redor de onde estávamos acampados, apenas observar o que estava acontecendo no presente e escrever a experiência em seus cadernos. Uma vez que todos estariam sentados sozinhos, lhes pedi a falar em voz alta com a natureza – com as árvores, pedras, folhas, insetos, nuvens, córregos ou o que quer que estivesse na sua frente – e ver o que eles poderiam aprender. Um deles voltou com uma compreensão incrível sobre árvores – como todas crescem em direção à luz, mas que não monopolizam o espaço. À medida que novas árvores apareçam, as mais velhas simplesmente se movem um pouco para o lado para que as novas também desfrutassem da luz.

kiss

Tudo isso nos remete à questão fundamental de “quem sou eu?” – o ‘teaser’ eterno para mentes questionadoras. No Alcorão é dito que Deus deu inteligência aos anjos e apetite aos animais. Para os seres humanos Ele deu os dois – inteligência e apetite. É justamente nestes dois pontos aonde ficamos presos. Desenvolvemos o que achamos que é a inteligência e entramos em todos os tipos de amarras. Obedecemos os nossos apetites e nos tornamos prisioneiros dos objetos dos sentidos. Como pássaros segurando em galhos das árvores, oramos a Deus para nos libertar de toda a bagunça que conseguimos criar para nós mesmos. O Divino então nos olharia e diria “que não são os galhos que nos seguram, mas que nós os agarramos”.

Texto de Ken O’donnell

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