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Se aceitarmos o nosso lado escuro, pode ser em parte nas nossas raízes religiosas: o cristianismo esqueceu a divina escuridão, com sua insistência na busca pela perfeição. No entanto, a mensagem bíblica fala de luz e trevas, vida e morte, como realidades integradas. Exemplo disso é a morte de Jesus, a vida para o mundo. Um convite para voltar às raízes da mensagem cristã e alcançar uma espiritualidade mais saudável, mais integradora.

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Se atualmente muita gente se rodeia de pessimismo, isso poderia ser o oposto de uma cultura que se espera que todos sempre estejam sorridentes, onde todos dizem “tenha um bom dia”. Se alguém te pergunta, “Como está seu dia?” automaticamente respondem: “Tudo bem!” Alguma vez disseram alguma outra coisa diferente quando perguntam “Como está seu dia?” Talvez, mas não seria uma resposta adequada, porque ninguém espera outra resposta além de “Estou bem!”. Perguntar “Como está seu dia?” na verdade não é uma pergunta, mas sim uma saudação, e responder: “Estou bem”, realmente não é uma resposta, mas sim um reconhecimento da saudação. Os dois são inseparáveis.
Frequentemente nós repetimos que estamos “bem” sem pensar, omitimos qualquer outra resposta. Mas aquilo que omitimos começa a ter vida própria. Pelas costas, como uma sombra, não enxergamos na nossa frente. Quando isso acontece, enfrentamos as coisas que são difíceis de lidar, difíceis de incluir. A escuridão (a que me refiro não junto com a luz, mas sim separada dela) dá lugar a corrupções e distorções, e a todo tipo de divergências pouco saudáveis. É por isso que uma personalidade saudável não exclui seu lado escuro, sua sombra, mas acolhe e a resgata, e assim faz a diferença.
Diferente de outras tradições, o cristianismo não teve muito êxito em desenvolver um método prático para incluir a escuridão. Em parte, essa é a razão de alguns dos problemas que hoje nos cercam. Em seu entusiasmo pela luz divina, a teologia cristã nem sempre fez justiça à divina escuridão. Isso tem consequências a respeito do esforço moral: se lutarmos para sermos perfeitos e puros, precisamos ter uma ideia concreta do que significa a pureza e a perfeição absoluta. Temos que ficar seguros sobre a ideia de uma perfeição estática, que deriva de um perfeccionismo rígido. A especulação abstrata pode criar uma imagem de Deus que seja alheia ao coração humano. No nível da doutrina religiosa, apresenta-se um Deus que foi limpo de qualquer coisa considerada oculta. Assim, nos esforçamos para viver segundo os parâmetros de um Deus que é pura luz, e por isso chegamos a lutar com nossa escuridão interior. Incapaz de enfrentar nossa escuridão, nós a excluímos. No entanto, quanto mais a excluímos, mais cobramos a própria vida, já que não está integrada. E assim, antes que nos demos conta, entramos em sérios problemas.
Podemos livrar-nos desta armadilha se voltarmos aos fundamentos da tradição cristã, a verdadeira mensagem de Jesus. Ali encontramos o que nos disse, por exemplo, “sejam perfeitos, assim como o Pai celestial é perfeito.” No entanto, Jesus deixa bem claro que não se trata de uma perfeição que remove a escuridão, mas sim a perfeição em uma totalidade integrada. Assim expressa Mateus no sermão da montanha. Jesus fala do Pai celestial que permite o brilho o sol sobre os bons e os ruins, e permita que a chuva caísse sobre os justos e pecadores. Fale de chuva e do sol, não apenas a respeito do sol. E fala de ambos, justos e pecadores. Jesus destaca o feito de que Deus permite a interação entre a luz e as trevas. Deus prova isso. Se a perfeição de Deus permite a interação dessa tensão, quem somos nós para insistir em uma perfeição a toda tensão removida?

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Em sua própria vida, Jesus convive com a tensão e aceita a escuridão. Como cristãos, em Jesus descobrimos como é Deus. Em verdade, os cristãos acreditam nisso sobre Jesus: cremos em um homem que é completamente humano, semelhante a nós em tudo, menos em nossa demência, em nossos pecados; e nesse ser humano podemos ver como é Deus. Esse ser humano morre gritando “Deus meu, por que Tu me abandonaste?” Nesse momento as trevas cobrem toda a terra, que se esclarece de maneira poética. Não necessariamente como um relato histórico do que aconteceu até então. Nesse momento, Deus alcança a maior distância do próprio Deus, e aceita à escuridão, as trevas em completa demência. Se Deus pode aceitar aquele que grita “Deus meu, por que Tu me abandonaste?”, se Deus aceita aquele que morre abandonado por Deus, então todos são aceitos: a morte, a vida e a tensão entre ambas. E esse momento é que segundo o evangelho de João, não é a antecipação da ressurreição, mas sim a própria ressurreição. Jesus havia dito anteriormente: “Hei de trazer todos para mim quando subir aos céus.” Segundo a teologia de João, essa ascensão é a exaltação na cruz. Sua morte na cruz é o momento de glória; é uma glória revertida. Morrer executado na cruz representava a máxima vergonha; no entanto, aos olhos da fé, Jesus teve a “ascensão”. Ali se dá a ressurreição. É também quando se derrama o espírito: morre dando um forte grito (que significa com poder, sem lamento) e entrega seu espírito. E nesse momento o mundo inteiro se enche do Espírito divino. O frasco se quebra, e o aroma enche toda a casa. Tudo é profundamente poético. Não se pode entender o evangelho de João se não entender o sentido da poesia; é apenas um poema, do início ao fim. Por não conseguir ler desse modo é que frequentemente nós caímos em todos os tipos de armadilhas.
Essa passagem tem implicâncias morais que estão profundamente enraizadas na tradição cristã desde suas primeiras expressões. Tocamos aqui no mais profundo do cristianismo. No entanto, a integração da luz e das trevas ainda não foi explorada devidamente; ai está o problema. As diversas tradições nem sempre se desenvolvem de maneira uniforme. O cristianismo existe apenas há dois mil anos, enquanto existem tradições muito mais antigas. Não conseguimos comparar os dois mil anos de cristianismo com nada.
Justamente agora estamos em uma importante etapa de transição. Estamos começando a observar certas áreas que não havíamos nos aproximados por muito tempo. Essa área, a integração da sombra, é uma delas. Martin Lutero entendeu, e a Reforma foi um período em que esse tema foi explorado com valentia. (É lamentável que devido a tantos erros diplomáticos de ambas as partes, tudo isso nos levou a uma renovação da igreja, mas na sua divisão). Lutero colocava ênfase em uma crença fundamental do Novo Testamento que somente agora está colocando em atualização a igreja católica: “por graça fomos salvos”. Essa é uma das mais antecipadas percepções na tradição cristã: não é pelas atitudes que recebemos o amor de Deus. Não é porque sejamos tão brilhantes e radiantes e ter limpado todas as trevas é que Deus nos aceita, mas aceita da maneira que somos. Não por fazer algo, não pelas nossas obas, mas de graça fomos salvos. Isso significa o que dizem a respeito, que Deus nos tem recebido. Deus nos aceita da maneira que somos: sombra e luz, tudo. Deus aceita tudo, de graça. E já aceitamos.
Mas aonde entra o jogo de luta moral? Todos nós sabemos que temos que ocupar algum lugar. São Paulo, que disse “por graça fomos salvos”, nos encoraja no capítulo seguinte que façamos dignos de uma dádiva tão imensa. Isso é algo totalmente diferente do que tentar ganhar. Muitos cristãos lutam para ganhar esse grande dom. Como podemos ganhar algo que é dado a nós? (Aqui estou simplesmente dizendo que Jesus nos ensinou, que ensina o núcleo da tradição cristã).
Paulo disse “fique com raiva, mas não peque”, isso soa contemporâneo. O pecado é a afastamento. Não deixem que seu ódio separe dos demais, nem tão pouco exclua. Ódio de verdade, mas o sol não se põe durante esse ódio. Novamente essa é uma afirmação poética; significa literalmente, que antes do entardecer façamos as pazes. Esse é um dos mais claros significados que existe, mas também pode querer dizer que nunca, nem sequer no momento em que sentimos ódio, deixemos o sol se pôr durante o momento de trevas. Vamos observar o que foi bem expressado: não deixes o sol se pôr sobre seu ódio, não deixes que sua raiva se converta em demência.
Posso declarar brevemente essas coisas, mas espero que ao menos sirva de exemplo e nos ajude a dar-nos conta de que, quando aprofundamos na tradição cristã, pertencendo a ela ou não, descobriremos todas essas coisas. Estão logo ali. Se perguntarmos “por que nunca ouvimos sobre elas?” “Por que foram expostos?” é porque ainda não se aprofundou nelas o suficiente. Cada um de nós tem que contribuir fazendo a sua parte. Quando esgotarmos o estudo da própria religião, deverá aparecer diferente perante nós em relação às coisas que era quando começamos a estudá-la; sim, não é assim, algo falhou. É nossa responsabilidade fazer que a própria tradição religiosa, qualquer uma que seja, cristã ou não, seja originalmente religiosa concluir nosso aprofundamento nela. Esse é o grande desafio que enfrentaremos.

Irmão David Steindl-Rast
Reproduzido do jornal “The Sun” (edição 137, abril de 1987) e originalmente concedido na conferência no retiro Sufista de Lebanos Springs, Nova Iorque, 1986.

Original: http://www.viviragradecidos.org/integrar-la-sombra/

 

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