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Vida, Morte e o nosso direito ao nada

“Se você perceber que todas as coisas mudam, não tentará se prender a nada. Se você não tem medo de morrer, não há nada que não possa alcançar.” Lao Tzu, Tao Te Ching


Estou atenta. Nascimento, beleza, maravilha, admiração, amor e riso, a todas as preciosas percepções que me eletrificam e me preenchem de vitalidade. Estamos em uma época energizada com nova vida. Nós sentimos isso quando andamos na floresta, quando o verde profundo em torno de nós permeia e alimenta nossos ossos.
Um cervo jovem e sua mãe estavam no nosso quintal há alguns dias.

Os cervos são uma visão comum em Boulder. Nós os amamos, observamos, abrimos caminho para eles, às vezes os ajudamos e os protegemos o máximo que podemos por aqui. Eles são um símbolo do equilíbrio natural que trabalhamos tão arduamente para conseguir, um remédio gentil que nos cura de nossa própria humanidade durante os poucos momentos que os observamos passar. Se somos verdadeiramente conscientes, entendemos que esses pequenos momentos são os preciosos para os quais vivemos.

O dia seguinte …

Ela estava deitada debaixo da nossa macieira no nosso quintal, perto do riacho. Fiquei chocada quando a vi. O peso grosso de tristeza cresceu pesado em meu peito, e podia sentir-me afundar mais profundamente na terra macia. Não tenho ideia de como ela morreu, mas seu corpo estava sem ferimentos e tão bonito quanto no dia em que ela nasceu.

A vida e a morte não estão tão distantes quanto pensamos. Nós tendemos a pensar em termos de anos, quando precisamos estar pensando em termos de momentos – preciosos, fugazes, momentos impermanentes.

Depois de encontrá-la, corri para dentro, encontrei minha smudge wand (ramo de plantas usado pelos nativos americanos para ser queimado como incenso) e me sentei ao lado dela. Ofereci amor, oração e gratidão à Mãe pelo pouco tempo que tivemos com ela. Lembrei-me de que, apesar do que podemos pensar que somos devidos nesta vida, temos direito a nada. Nascimento não dá direito a nenhum de nós para uma vida longa e saudável, nunca o fez. O que nos é dado são oportunidades, chances de descobrir que a vida é plenamente vivida nos momentos em que estamos acordados e prestando atenção, e cada um é um presente que não deve ser dado como garantido.

É difícil lembrar-se disso todos os dias, de não sermos apanhados nas redes de nossa mente e coisas humanas, de não sermos tão duros com nós mesmos, de querer mais do que já temos, de não julgar uns aos outros e de assumir que temos tempo para fazer as pazes. Abraçar a morte tão perto do peito e sentar-se sabendo que estamos muito mais perto do nosso último fôlego do que imaginávamos é intenso e exaustivo. Mas acredito que é essa intensidade que nos permite nos libertar. É essa vulnerabilidade que nos permite dançar com abandono, gargalhar alto e ver a maravilha e reverência em tudo e em qualquer coisa.

É esta vigília de olhos arregalados que nos permite rugir “SIM !!!!” e dizer obrigado, obrigado, obrigado


EPÍLOGO:

Logo aprendi que o cervo debaixo da nossa macieira não era o jovem cervo que eu vira no dia anterior. Pouco depois de me sentar com esse cervo, senti a presença de algo à minha direita. Olhei e era a mãe, a mesma mãe que eu tinha visto no dia anterior. Ela olhou para mim intensamente enquanto eu lentamente me afastei de seu cervo e voltei para o deck. Então vi outro movimento com o canto do meu olho. Outro cervo, trotou para a mãe, o mesmo jovem cervo que eu vira no dia anterior e irmão daquele que havia morrido. Este cervo mãe tinha dois bebês.

Eles voltaram para verificar o que não mais existia. Não consigo descrever com precisão as emoções que senti nesses momentos. Uma mistura espiritual e emocional de compaixão, tristeza, reverência, alegria, revelação, maravilha, realidade, gratidão e gravidade. O que eu testemunhei foi o começo e o fim de uma só vez, vida e morte em plena floração. Nós três nos abraçamos, em curiosidade, intensidade e para mim, completo e absoluto amor, compaixão e reverência. Eu só podia esperar que seus sentidos mais desenvolvidos pudessem receber e sentir tudo o que eu estava enviando.

Misa Terral não pode cantar ou cozinhar bem, mas pode dançar e escrever. Ela vive para ensinar as pessoas a dançar e incorporar seus Eus mais autênticos através da música e do movimento. Sua paixão é a conexão em comunidade e cultivar reverência pela morte, perda e tristeza, bem como gratidão, alegria e vivacidade. Misa é terapeuta ocupacional pediátrica, instrutora de dança, Death Doula, and Soul Sweat™. Ela co-fundou e escreve em Pockitudes ™ (https://www.pockitudes.com), Wander Wonder Discover (https://wanderwonderdiscover.com) e Death Doula Collective (https://deathdoulas.com). Esta história foi publicada originalmente em junho de 2017.

Texto original: https://gratefulness.org/grateful-living/life-death-and-our-entitlement-to-nothing/

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