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O agora que não se acabará

Uma entrevista com o irmão David Steindl-Rast, por Megan Biesele.

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As perguntas feitas nesta entrevista são na maior parte com base em uma palestra, “por que um homem se torna um monge”, palestra dada pelo irmão David na Universidade Ann Arbor em 1963 e impressa em CRUX, a publicação da equipe ecumênica do campus no Natal de 1963. Na palestra, o irmão David disse que o primeiro passo para entender por que as pessoas escolhem a vida de monge é “encarar a realidade da morte… a morte é ao mesmo tempo a passividade definitiva e ainda um trabalho a ser realizado momento a momento por toda a nossa vida… cada momento tem que responder a pergunta inexorável representada pelo movimento do nosso ser por completo para sua negação absoluta… essa questão da morte se torna um desafio para viver.”

Biesele: Em sua palestra, você discutiu a deterioração física da humanidade e a consciência resultante da culpa como fatores que estimulam uma pessoa para o monasticismo. Você poderia elucidar a experiência que ocorre quando alguém de fato se torna consciente desta culpa?

Irmão David: Esta experiência é, claro, difícil de apontar com precisão; é altamente pessoal. Ela é uma experiência paradoxal. Por um lado sentimos que de alguma maneira “merecemos” a morte, e ainda pensamos que essa situação seja muito “escandalosa”. As pessoas primitivas sentem mais isso. Os mitos antigos sobre a origem da morte são mais reveladores a este respeito. Mas nossa própria sociedade trai sentimentos semelhantes pelos seus esforços, às vezes esforços um tanto grotescos, para calarem o constrangimento ligado ao enfraquecimento e a morte.

Biesele: Estranho que isso deva ser um constrangimento. Mas Thomas Mann, autor do livro “A Montanha Mágica”, expressa muito a mesma ideia: a vergonha que está ligada ao enfraquecimento e decomposição. Será que seria para o avanço da sociedade, mental e espiritualmente, se pudéssemos superar essa vergonha.

Irmão David: Não é exatamente isso. Eu acredito que deveríamos superar a ansiedade que é com frequência provocada pela morte, e que podemos superar isso com precisão ao encarar diretamente este paradoxo, e manter-se em silêncio não vai nos ajudar a superar isso. Eu não acredito na atitude Estóica de ter a morte como certa. “A música sem melancolia” de Edna St. Vincent Millay expressa o que para mim é mais uma atitude realmente humana: “…Eu sei. Mas não aprovo. E eu não estou conformada.” Eu conheço as pessoas, e as pessoas em que eu tenho grande respeito, que dizem que a vida e a morte são apenas dois lados da mesma coisa, aspectos complementares como a luz e as trevas, caminhar e dormir. Eu os respeito, mas eu não concordo com eles. A visão deles tem certo apelo, mas não é enganadora.

Biesele: Parece que as pessoas que dizem este tipo de coisa podem não terem pensado profundamente sobre o assunto e podem estar falando com sofismas.

Irmão David: Não, aqueles de quem eu falo não estão falando com sofismas. Mas não importa a forma sincera que eles são pessoalmente, eles estão fechando seus olhos para certos fatos objetivos. Por exemplo, a verdade é que a vida humana, na única forma da qual conhecemos, o destino é a destruição; e por outro lado, a verdade de que “toda alegria quer eternidade,” como Nietzsche coloca. O amor quer eternidade. E todos os amantes confessam espontaneamente amor eternal. Qualquer poema amoroso é prova disso.

Biesele: Disseram que o Cristianismo é a única religião que dá um positivo significado para a morte. O que você acha da ideia que o conhecimento da morte nos livra da preocupação com ela?

Irmão David: Sim, a exata preocupação com a morte é simplesmente um estágio inicial no caminho para uma maior valorização da vida. Não podemos se estressar tanto para que a principal preocupação não seja com a morte, mas sim com a vida.

Biesele: Na sua palestra, você em sentido figurado, ligou a experiência da morte com a imagem de fogo ao citar o poema de William Empson, “Missing Dates”:

Não ter fogo é ser uma pele estridente.
O fogo completo é a morte. Dos fogos parciais
As cinzas permanecem, as cinzas permanecem e mata.

Se eu entendi esse poema corretamente, ele expressa a ideia que quando não nos doamos completamente à vida, algo dentro de nós vira resto e é eliminado. E toda vez que não estamos vivos por completo, um pouco mais dessas “cinzas”, como Empson chama isso, se acumulam, até levar a melhor sobre nós no final. Como este vínculo entra no conceito central da sua palestra?

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Irmão David: É uma imagem magnífica para o paradoxo a quem o monge responde, ou tenta responder. Você percebe como o paradoxo firmou o próprio uso do imaginário poético: Por um lado, “fogo” significa a vida, e que essa nossa parte que retemos da esplêndida combustão de vida, se transforma em venenosos “montes de escória”- “as cinzas permanecem e mata.” Mas, por outro lado o “fogo completo é a morte.” Este “fogo completo” que nos domina de fora é ao mesmo tempo a nossa última chance de doar-nos inteiramente, de modo que pode consumir todo o lixo tóxico, nos tornará plenamente vivos. Aí reside o desafio da morte que o monge tenta unir de maneira especial.

Biesele: Você poderia explicar o que você quer dizer com isso de “maneira especial”?

Irmão David: Bem, a fim de se tornar totalmente humano, devemos nos expor para o duelo com o “fogo,” deparar com esse mistério em que a vida e a morte coincidem. E há dois eventos em nossas vidas que poderiam abrir a prisão em que tendem a nos bloquear, de modo a excluir o “fogo.” Um é a experiência do amor; o outro é a experiência da morte. Ambos destroem a ilusão de nossa auto-suficiência. Os dois estão intimamente ligados, e para se tornar totalmente humano que devemos vivenciar as duas experiências.

Mas a ênfase irá variar. Para o monge o encontro com a morte está em primeiro plano. Começa para ele a experiência de redenção para o “fogo.” Para o monge Cristão esse “fogo” é o mistério da morte e ressurreição de Cristo; e sua “maneira especial” é uma forma de vida orientada em cada detalhe para compartilhar a passagem de Cristo da morte para vida. Mas por monges budistas também, “Satori” (Iluminação)- com respeito à vida completa deles – é muitas vezes comparada com a morte. Foi mais interessante para mim, a propósito, para compartilhar alguns desses pensamentos com outros monges aqui na conferência da semana. Falando por exemplo com o Reverendo Eido Tai Shimano, um monge Budista Zen, fiquei impressionado com a nossa profunda conformidade sobre a importância da morte, para as perspectivas do monge sobre a vida.

Biesele: Você descobriu em suas conversas naquela semana que Budistas e as doutrinas Católicas sobre a preparação para morte como essas sobre a própria morte, têm pontos de semelhança?

Irmão David: Sim, Eu acho que poderíamos dizer que as espiritualidades dos monges Budistas e Católicos residem precisamente nisso: nós nos preparamos a cada momento para uma entrega cada vez maior para o “fogo”, integrando a morte em nossas vidas, de modo a ser bem mais plenamente vivo. Nós tentamos dar a nós mesmos o que nós chamamos de Natal “O sacramento do momento presente.”

Biesele: Não foi em referência a esse “sacramento do momento presente” que você citou sonetos de Rilke’s para Orpheus:

Seja!- E observe o que é ser negativo
Apenas o terreno infinito de sua vibração fervorosa
Realiza isso por completo neste momento único!

Embora pareça um reconhecimento que se alguém obtenha qualquer coisa que pode ser nada, exceto uma magnífica realização momentânea que não pode suportar.

Irmão David: Sim, pode ser muito bem que Rilke quis dizer isso neste sentido. Mas, eu tenho uma interpretação do que ele pode não ter pensado. E se for uma boa poesia, deve dar muitos níveis de interpretação. A meu ver, Rilke, por alcançar a plena realização deste momento único, entrar para “eternidade.” Na verdade, Rilke pode ter consciência disso quando ele escreveu em outro dos sonetos.

Mude, embora o mundo possa tão rápido
Quanto coleções de nuvens
retornar para o imutável finalmente
derrubando todas as perfeições.

Biesele: Você quer dizer que podemos entrar na dimensão da eternidade no instante em que nos doamos perfeitamente ao momento atual?

Irmão David: É diferente, porque deixa o paradoxo da morte intacto. E a Realidade Definitiva (“Deus”, se você quiser usar termos cristãos) deve ser paradoxal. O momento atual é o princípio onde os Budistas e Cristãos vivos encontram a realidade final. Quando chegamos ao momento da morte é apenas o cumprimento de muitas sessões de treinos, a labareda de “fogo” em que nos tornamos mais perfeitamente, e que o agora não se acabará.

Reproduzido da revista Geração (editado e conduzido pelos estudantes da Universidade de Michigan), Primavera de 1966.


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