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Uma revolução da autoridade

Jesus Cristo trouxe uma revolução completa do discernimento da palavra autoridade.

autoridade

A equipe de edição da revista “O que é iluminismo” pergunta: Nos dias de hoje existe um clima cauteloso quanto às pessoas que se comportam como autoridades espirituais. Existe uma tendência de ficarem muito céticos no que se diz respeito à possibilidade que alguém pudesse ser uma verdadeira autoridade. Ainda que por tradição tenha sido bastante comum as pessoas procurarem um líder espiritual como guia, e deposita a confiança neste líder. O que você acha disso?

Irmão David responde: Há vinte e poucos anos atrás, havia uma abertura muito maior para fazer com que qualquer pessoa que surgisse e coincidisse em possuir grandes referências para ensinar seu guru. Hoje em dia muitas pessoas são queimadas, e elas vão pensar duas vezes. Isso é ceticismo, e pode facilmente tornar-se cinismo, algo que não é muito saudável. Mas também tem seu aspecto saudável porque os mestres têm que provar a eles mesmos, e as pessoas deixarem de ser crédulos. Por outro lado, a nossa geração é tão assustadora; existem tantas coisas acontecendo que nos assustam, muitas pessoas querem proteção a qualquer custo. Elas vão permitir que sejam degradadas, insultadas e vão se tornar dependentes de um líder só para terem a sensação de segurança, para sentirem que elas sabem de tudo. Sem fazer perguntas, você apenas faz o que lhe dizem, ou coisas desse tipo. Isso é sempre um grande perigo em tempos de medo. E nossa época é uma época de inspirar o medo. Eu entendo quando você diz que muitas pessoas estão mais céticas, mas também existem pessoas que querem apenas este tipo de proteção a qualquer preço, e estão dispostas a serem reprimidas e degradadas. Logo, consequentemente elas pagam esse preço.

A autoridade deve ser usada, mas existe somente um uso permitido para isso, e que seja para capacitar aqueles que estejam sujeitos a autoridade.
Existe apenas um grande líder espiritual e que é o Espírito Divino em seu coração. O que qualquer líder espiritual além do que pode fazer, no melhor das hipóteses, é sempre reconduzir você àquele líder dentro do seu coração. Mas a palavra-chave aqui é “autoridade”. Nos dias atuais, temos uma noção bastante empobrecida, e de fato grandemente distorcida de autoridade; julgamos que autoridade seja o poder para comandar. Na verdade, está errado. Isso é um significado derivado de autoridade. Originalmente, autoridade significa: uma base consistente para o saber e o agir. Se você quiser saber o que fazer em um caso específico, você irá até um livro que seja uma obra de ‘referência’, ou você vai procurar uma pessoa que seja ‘especialista’ no campo dele ou dela, e assim por diante. Desta forma, esse é o original significado de autoridade. No entanto, pela razão das quais as pessoas que proporcionam uma base consistente para o saber e o agir pelos outros são poucas e distantes entre si, você as coloca na posição de autoridade, isso significa que você dá a eles o poder de comandar. Mas, quanto mais poder alguém tenha, maior será o risco de corrupção. É aonde alguns líderes espirituais logo desaparecem no fundo do poço. É da onde vem o debate do uso adequado da palavra “autoridade”.

Jesus Cristo trouxe uma revolução completa do discernimento da palavra autoridade. Isto é, eu acho, o discernimento mais central da tradição Cristã, e de maneira latente sua maior contribuição à espiritualidade no mundo. Ocorreu de duas maneiras. Em primeiro lugar, Jesus reconheceu a autoridade de Deus, no qual foi sempre visto como visível, nos corações dos seus próprios ouvintes. A parte central do ensino de Jesus não é, “eu vou dizer a todos vocês”, ou algo desse tipo. Não, ele pressupõe que você saiba disso tudo. “Você não sabe sobre isso? Eu farei você lembrar a respeito disso. Você conhece tudo isso”. Assim Ele se expressa. Essa pergunta abre muitas parábolas, “Quem de vocês já não conhecem isso?” Não é enfatizado o bastante no ensino Cristão hoje em dia, mas no momento em que você estiver atento a isso você verá.

Assim, um dos eventos de fato dramáticos que aconteceram na história – e esse é o motivo que o mundo ainda esteja cambaleando com o que aconteceu na vida de Jesus – é que com Jesus, a Divina autoridade foi diretamente colocada nos corações de cada ser humano. Isso foi uma tremenda revolução. A inerência de Deus, o Divino no coração da humanidade foi enfatizado. Provavelmente, foi necessário que isso deveria acontecer em um cenário em que a duplicidade foi mais forte do que em qualquer outro lugar. “Sagrado” na Bíblia hebraica significa “o outro por completo”. Então, Deus foi absolutamente o outro. Logo Jesus vem e mantém isso, não nega isso de maneira alguma, mas também diz que definitivamente o outro está mais próximo de você do que você está de você mesmo. Deste modo, isso foi a primeira parte da revolução da autoridade, já que a Divina autoridade é colocada no coração da terra.

O segundo aspecto é bem mais expresso na imagem de Jesus lavando os pés dos discípulos e dizendo, principalmente: “Vocês me chamam de Senhor e Mestre. Em outras palavras, vocês me chamam de autoridade. Vocês têm razão, é isso o que eu sou. Mas no mundo, aqueles que tiverem poder governarão sobre os outros. Com vocês isso deveria ser diferente. O maior entre vocês, aquele que tiver mais poder, deveria ser o servo de todos. E isso é o que mostro a vocês devido ao fato de estar lavando os vossos pés”. Essa é a resposta da pergunta. Então, para que a autoridade é benéfica? A autoridade deve ser usada, mas existe somente um uso permitido para isso, e que seja para capacitar aqueles que estejam sujeitos a autoridade. Uma das coisas mais importantes sobre Jesus é que ele aparentemente tinha grande autoridade, mas não se prendia ao seu poder. Ele até mesmo com ênfase dizia aos seus seguidores que isso não é o que vocês fazem – vocês viram de cabeça para baixo e se tornam servo de todos. A princípio, a autoridade divina foi depositada nos corações de todas as pessoas. Logo, foi concedida para autoridade humana uma tarefa, a saber, não para derrubar aqueles que estejam sujeitos à autoridade, mas para fortalecê-los e capacitá-los.

Isso nos dá uma avaliação muito boa para olharmos com atenção para os líderes espirituais, e ver quais são líderes autênticos e quais não são. Eles usam seus poderes para capacitar outros? Pode haver uma fase em que a pessoa tem que ser carregado igual uma criança. Pode haver uma fase de dependência que alguém talvez tenha que passar. Mas, você terá que observar o panorama geral. Com qualquer líder você perceberá, ao observar os alunos talentosos desses líderes. Quando você perceber que este líder consegue ser auto-suficiente, aí sim isso é ser autêntico. Quando você perceber que esse líder vai precisar da dependência dos aprendizes, logo então mantenha distância, pois ele é perigoso e duvidoso.

Irmão David Steindl-Rast

Reimpresso da revista “O que é iluminismo” (What is Enlightment) Primavera/Verão de 1996, Vol. 5, #1, páginas 26-27.


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